Musicas

27 de mar. de 2026

E daí?

Sim, você me viu.
Eu passei por ali mesmo, 
Exatamente nessa hora. 
Mas e aí? 
Que que tem? 
Por que me conta? 
Me viu e o que mais? 
... 
Que coisa.
Me viu, eu estava lá. 
Foi bom? É ruim?
Que tem de mais em me encontrar? 
... 
Quem é você? 
Você está me espionando? 
Quer saber onde estive? 
Pra onde vou? 
Onde você quer ir com essa informação?
...
Sim, era eu, 
Passo por lá por frequência. 
Mas e daí? 
E daí? 

10 de mar. de 2026

Sobre redes sociais.

Faz algum tempo que eu desativei minhas redes sociais e há algumas coisas que venho refletindo desde então.
De princípio, vale apontar qual foi a primeira motivação para desativar as redes sociais. Na verdade foram duas. A primeira tem a ver com perder muito tempo rolando feed, e isso já estava me incomodando há algum tempo. Foi em setembro de 2018 que o feed do Instagram virou uma espécie de feed voltado para o Setembro Amarelo. Na época, eu estudava o suicídio como objeto da ciência social. Ficar diante daquilo foi perturbador. Era uma clara tentativa de fazer do suicídio algo individual, como se fosse culpa do indivíduo, e todas as postagens reproduziam isso.
Eu me vi pensando: nossa, eu já tenho compreensão suficiente para entender que não vai ser uma mensagem positiva que vai salvar alguém. Não do jeito que está sendo feito, de forma mercantil. Enfim, surtei e decidi desativar meu Instagram por um mês. Já vão fazer quase oito anos desde que deletei o Instagram. Um por um, fui deletando tudo: Instagram, Facebook, Twitter, Tinder, tudo. Eu mantenho apenas uma rede para conversar com alguns amigos, e só.
Um tempo atrás surgiu uma nova rede social. Me interessei e abri o BlueSky. Depois de um tempo usando, quase sem nenhum amigo ali, percebi que há vários problemas para mim numa rede social.
O primeiro é a exposição. É uma exposição que te coloca no papel de bobo da corte, onde, se você quer certa atenção, precisa trabalhar para isso. Você pode usar seu corpo, sua empresa, seu relacionamento, suas ideias, expor alguma coisa ali, vitrinificar. Tornar aquilo que você vive um produto para chamar a atenção de alguém. E a minha pergunta é: pra quê?
Eu ouvi uma coisa uma vez, que depois se repetiu em vozes diferentes: quando você usa alguma coisa de graça, é porque o produto é você. Conforme o tempo passa, tenho sentido isso com mais força em relação às redes sociais. É uma espécie muito sofisticada de aparelho coercitivo.
É como aquele comercial antigo de brinquedo infantil em que as crianças faziam uma propaganda muito apelativa: “eu tenho, você não tem”. Parece isso quando você fotografa a sua comida para mostrar, em vez de comê-la. Às vezes nem estava tão bom, mas estava tão bonito que se vende mais a imagem do que o próprio viver.
Enfim, essa é a primeira coisa: tornar-se um produto em exposição.
Existe uma segunda tentativa, que é a de retirar o espírito da coisa. Parece bobo quando a coisa vai para o metafísico, mas gostaria que acompanhassem o raciocínio: existe uma diferença entre fazer uma coisa porque você quer fazer e viver aquilo, e fazer uma coisa para gerar um conteúdo com aquilo. Um conteúdo, uma evidência, uma mídia.
É perturbador ver pessoas indo a shows para filmar com o celular um show que já está sendo filmado de forma profissional. Ou pessoas que entram em relacionamentos para tirar fotos de um relacionamento feliz. Ou pessoas que vão viajar e querem demarcar os lugares em que foram, mesmo que a viagem tenha sido um lixo, ou que tenha sido legal também. Não me faz muito sentido.
Conversando com algumas pessoas, boa parte delas já entende a rede social dessa forma, nessa problemática. E parece estar bem com isso. No final das contas, me parece um problema muito individual. Talvez seja eu mesmo que tenha algum problema com rede social.
Será que é isso mesmo? Ou será que as pessoas já estão anestesiadas para esse tipo de coisa?
Porque vai um tempo rolando feed de rede social. Vai um tempo para planejar o que você vai postar ali. Vai um tempo para se tornar um produto.
A pergunta ressoa, e não deveria ressoar apenas para mim: será que vale mesmo todo esse tempo?

9 de mar. de 2026

Criaturas

O enfado eterno é insuportável aos Deuses.
Mesmo parados, querem diversão. 
Nem que seja momentânea, fugaz.
Deus mesmo precisa de um problema, 
Talvez seja aí a aproximação com a filosofia.

Parados, os deuses não sabem lidar com o tédio, 
Nos criaram para se divertir, por mero prazer,
E pedem oferendas, rituais, sacrifícios... 
Mas não precisam de nada. 
Os Deuses não sabem desejar. 

Nós, mortais, tampouco sabemos lidar com o vazio. 
Estamos sempre na ânsia de ocupar nossa existência, 
Como se fosse um problema. 
Movidos por um desejo visceral de fugir do tempo.

A vitrinificação encarna-se. 
Vários olhos se assistem de vários ângulos,
A disputa não cessa, 
Mas ninguém ganha um placar. 

Deuses nos criam para não lidar com o abismo. 
É só isso que somos, criaturas de entreter Deuses. 
Não por virtude deles. 
Por medo. 

Afinal, quem é que aguenta o abismo olhando de volta?