Musicas

12 de out. de 2026

Desajeito

É que eu sou desajeitado,
Levo isso de pensar a sério demais.
Falo em voz alta tentando buscar confirmações. 
Talvez por isso soe esquisito. 

Há certas preocupações que não desligam, 
Sobre a natureza das coisas, 
Quem somos nós... 
E nós?

Não sou do tipo que fala sem pensar,
Falo atravessado, penso rápido,
E desse jeito conquisto e destruo.
Já nem parece algo novo.

Embora o meu agir assim seja,
Não há muito a dizer sobre meus afetos,
Tento ser cristalino,
É um dom.

Na intimidade, eu medito,
Aprendi que o silêncio é mais responsivo.
Gosto de atenção genuína,
Cobrar não é algo meu.

Busco fundamentos, alicerces.
Chão firme em terremoto.
Não que eu esteja encontrando,
A busca tem sido longa demais. 

8 de out. de 2026

Horizonte

Tanto tempo se acumula em nossos encontros...
E vejo que nossas ambições vivem em um beco, 
Difícil de perceber, mas não é mais que isso, 
Sempre na busca sem proveito. 

Eu quero mesmo é ver quem aproveita, 
Quem delira no ápice do encontro daquilo, 
O tão esperado aquilo.

As pessoas nomeiam a liberdade,
Dizem amá-la, a querer...
Será mesmo meu papel alertar?
A liberdade é um buraco impreenchivel. 

Um vazio.
Desencontro. 
Alheia em meio a tantas possibilidades. 

Bom mesmo é agir, 
No hábito ou sem ele,
Viver na força da própria vida.
Essa mesma que nos aprisiona...
Numa sequência de coisas sem sentido...

E nos faz ansiar...
Pela tal realidade. 

1 de set. de 2026

Tela

Sem rascunhos, 
Só traçar e fazer arte. 
Desenhar e pintar sem segunda chance. 

Pintar o prazer,
Pintar a dor. 

Instantes de felicidade, 
Em um quadro sem preparo, 
Sem o esboço. 
Uma chance apenas de acertar. 

Não há a sorte da redenção. 
Ah, como bem sei pintar a sorte. 
Vê-la como algo que encanta até imortais.
Sufocante para quem há de morrer.

Pintar, é sempre um luto.
Seja pra lidar, seja pra fugir.
O fim que nos permite criar.

Sei criar o prazer,
Criar o amor.
Mas só há beleza no inédito,
Não basta pincelar por cima.

Sou bom em desenhar a solidão,
Fácil de desenhar, 
Difícil de enxergar. 
Essa só se revela em comparação,
Um hábito péssimo. 

Pintar a morte e a vida. 
Concomitantemente. 
Uma vez só. 

Até que o amor fique sem objeto 
Até que o pincel não tenha quadros
Até que a vida não encontre mais nada. 

30 de ago. de 2026

Declaração

É que foi o momento,
Forte como droga,
Altamente viciante.
Molhado, quente, ofegante.

Interrompido.

Um milhão de anos pra concluir,
Nada ainda.
Seriam quantas vidas pra te ter?
E pra me ter?

Me diga,
Se eu sou tanta poesia,
"Quando você será meu ritmo?"
Te aguardo.

24 de ago. de 2026

Amanhã

Tanto esforço... 
Correria, prazo. 
O vencimento próximo, 
E nada se aproxima. 

O silêncio assusta. 

17 de ago. de 2026

A Dama (2)

A verdade é que você é louco por mim,
Todos são. 
Essa farsa de desdém engana só desavisados, 
Eu não saio das suas palavras. 

Sempre, o tempo todo, 
O instante que não se sucede. 
É o memorável momento, 
Onde a história se cumpre.
Sempre na fuga do tempo. 

Sou eu na sombra do teu desejo,
Ainda que vá me negar,
Sem sucesso,
Pois eu não lhe dou chance de resgate.
Não sou conhecida por ser vencida.

Estou na vanguarda da tua esperança,
O furo na causalidade,
Sou o encontro que você tanto espera,
Tanto ama, tanto clama.
Enquanto não me encontra. 

9 de ago. de 2026

Deserto

É um deserto,
Quase uma ilha cercada de areia movediça. 
Faltam direções, 
Por mais convencionais que elas se apresentem. 
Faltam-nas. 

É olhar ao redor e ver um céu azul, 
Ou cinza...
Sem conseguir ver de onde vem as nuvens, 
Sem vento, nada para guiar.

É sem saída,
Mas algo nos força a andar.
Uma espécie de gravidade,
Só está aí, sem explicação.

É sem estrela a noite,
Também sem noite, sem dia.
Uma espécie de plano,
Mas sem plano nenhum.

É um recorte, um pedaço,
Ausente de totalidade anterior.

Mas
Tem a procura,
Forjada na enganação.
Ou será que não? 

8 de ago. de 2026

Afeto

Ah... O afeto!
Desses que aparecem sem aviso, 
Sem hora marcada, sem pedido. 

Podemos até esperar,
Ficar na esperança, 
Mas quando ocorre... 
Ocorre. 

Nos atravessa, invade, 
Penetra onde não deve, 
E é bom. 

29 de jul. de 2026

Pesadelo

Um pensamento me assombra,
Sempre ali, marcando presença, 
Batendo ponto ininterruptamente. 

Dormir sempre foi meu refúgio,
Fugir mesmo. 
Foi sempre o que me apeteceu, 
Diante do abismo, é fácil saber quem vence. 

Eis que esse tal subconsciente,
Em suas tramas, ardilosamente... 
Desliga o maldito. 
Sequer me lembrava. 

A verdade é que me fechei ao mundo,
Pois me prometi não ceder de novo,
Atento, em guarda.
Mas é só outra arapuca. 

E acordo, devastado. 
Deprimido. 
Só de notar que... 
A maldição ainda está aqui. 

27 de jul. de 2026

Tufão

Chega sorrateiro,
Produz pouco som. 
Manso, delicado. 
Não parece perigoso. 

Porém é novamente a questão da aparência, 
Sabota nossos sentidos, nossa fala. 
Aparenta ser um belo nada, 
Um vazio. 

Nos engole, nos deixa tontos... 
Coração palpita, o medo vence o real.
Sem nada para apontar
É a dificuldade de sempre.

O desafio de nomear,
De transformar [o que quer que seja] em discurso.
E ficar parado, estagnado, se repetindo:
Tá tudo bem.