Musicas

16 de mai. de 2026

Passagem

Ser importante sem ser especial, 
Relevante sem plateia, 
Participar e ser esquecido,
Ser bom porém sem valor. 
Tão necessário e tão substituível... 

4 de mai. de 2026

Hábito.

Existe algo sobre se sentir sozinho que parece aparecer somente em momentos bem específicos da vida. Parece que ficar sozinho muito tempo te coloca em uma sensação de viver no automático: fazer as coisas diariamente, no mesmo horário, procurando exercer excelência para si mesmo acaba te esvaziando de outros.
Acabo pensando bastante na noção de virtude apresentada por Aristóteles. Não que eu concorde com o que ele apresenta como filosofia, mas aí é que está, parece que não é uma questão de concordância, é só o que é mesmo.
Buscar o que há de melhor na nossa vida não vai se traduzir nunca em um momento de felicidade tal como a gente espera, isso de fazer as coisas pra ser feliz precisa ser colocado no lugar, a felicidade só pode ser observada a distância. Não porque ela esteja fora da vida, mas sim por que imerso numa vida feliz é impossível reconhece-la por falta de contraste, de não ser possível perceber que era feliz até que a felicidade acabe.
Será mesmo que a felicidade é sempre desavisada? Mesmo que planejada, executada, buscada, disciplinada. Tudo para converter comportamentos em hábitos que posteriormente serão vividos plenamente fora da consciência... 
É algo a se pensar, entender que nossas próprias ações nos guiam para habitualmente ter uma vida "feliz" nos coloca num paradigma solitário: o de ter que lidar com nosso plano sozinho, mesmo que nosso plano de vida seja compartilhar com um outro.
Isso parece óbvio, mas não há nada que se possa inferir de obvio daí. 
A primeira coisa é que ninguém é capaz de avaliar se você é feliz, exceto você. Pois essa avaliação não é feita de forma objetiva, com dados concretos e compartilhaveis, pelo contrário, é bem possível que nem mesmo você, sendo o próprio avaliador, tenha seu próprio gabarito. É preciso molda-lo, experienciar. 
Outra coisa é que a busca por sentido mais amplo, inato ou a priori (se é que eu entendo a diferença entre esses conceitos) é chula. Não é que faça alguma diferença em algum âmbito, talvez assumir que o sentido seja construção própria seja não só mais fácil, como seja a única via possível. Ficar se desgastando com explicações mirabolantes para o sentido da vida é só um vício estranho mesmo. 
Por fim, os momentos de solidão vão mostrando que a vida é um fluxo e que na verdade você não tem muito poder de escolha sobre o que sente, deseja, seus afetos e nem mesmo como afeta os outros. Talvez a única coisa que tenhamos algum controle é a nossa ação. E essa tem um modo bem acabado de existir: é hábito. 

30 de abr. de 2026

In the dark

Admiro-te de longe.
Estou plenamente convencido que é melhor, 
Sem medir palavras, sem arriscar. 
Somente eu é que sei a intensidade da voz que me alerta. 
Da voz, dos olhares e das frases não ditas. 
Tudo sempre demais. 
Sempre vendo a expressão na lacuna dessa. 
É sempre o desvio, um silêncio suspeito. 
Notar-se a si mesmo é sempre um beco. 
Um abismo, uma ideia. 
Uma dessas que flutuam no nada, 
Que perduram nas lágrimas que acompanham a insônia. 
Quando a noite vem, e tudo fica mais claro... 
Ou, deveria eu dizer, escuro?? 

27 de mar. de 2026

E daí?

Sim, você me viu.
Eu passei por ali mesmo, 
Exatamente nessa hora. 
Mas e aí? 
Que que tem? 
Por que me conta? 
Me viu e o que mais? 
... 
Que coisa.
Me viu, eu estava lá. 
Foi bom? É ruim?
Que tem de mais em me encontrar? 
... 
Quem é você? 
Você está me espionando? 
Quer saber onde estive? 
Pra onde vou? 
Onde você quer ir com essa informação?
...
Sim, era eu, 
Passo por lá por frequência. 
Mas e daí? 
E daí? 

10 de mar. de 2026

Sobre redes sociais.

Faz algum tempo que eu desativei minhas redes sociais e há algumas coisas que venho refletindo desde então.
De princípio, vale apontar qual foi a primeira motivação para desativar as redes sociais. Na verdade foram duas. A primeira tem a ver com perder muito tempo rolando feed, e isso já estava me incomodando há algum tempo. Foi em setembro de 2018 que o feed do Instagram virou uma espécie de feed voltado para o Setembro Amarelo. Na época, eu estudava o suicídio como objeto da ciência social. Ficar diante daquilo foi perturbador. Era uma clara tentativa de fazer do suicídio algo individual, como se fosse culpa do indivíduo, e todas as postagens reproduziam isso.
Eu me vi pensando: nossa, eu já tenho compreensão suficiente para entender que não vai ser uma mensagem positiva que vai salvar alguém. Não do jeito que está sendo feito, de forma mercantil. Enfim, surtei e decidi desativar meu Instagram por um mês. Já vão fazer quase oito anos desde que deletei o Instagram. Um por um, fui deletando tudo: Instagram, Facebook, Twitter, Tinder, tudo. Eu mantenho apenas uma rede para conversar com alguns amigos, e só.
Um tempo atrás surgiu uma nova rede social. Me interessei e abri o BlueSky. Depois de um tempo usando, quase sem nenhum amigo ali, percebi que há vários problemas para mim numa rede social.
O primeiro é a exposição. É uma exposição que te coloca no papel de bobo da corte, onde, se você quer certa atenção, precisa trabalhar para isso. Você pode usar seu corpo, sua empresa, seu relacionamento, suas ideias, expor alguma coisa ali, vitrinificar. Tornar aquilo que você vive um produto para chamar a atenção de alguém. E a minha pergunta é: pra quê?
Eu ouvi uma coisa uma vez, que depois se repetiu em vozes diferentes: quando você usa alguma coisa de graça, é porque o produto é você. Conforme o tempo passa, tenho sentido isso com mais força em relação às redes sociais. É uma espécie muito sofisticada de aparelho coercitivo.
É como aquele comercial antigo de brinquedo infantil em que as crianças faziam uma propaganda muito apelativa: “eu tenho, você não tem”. Parece isso quando você fotografa a sua comida para mostrar, em vez de comê-la. Às vezes nem estava tão bom, mas estava tão bonito que se vende mais a imagem do que o próprio viver.
Enfim, essa é a primeira coisa: tornar-se um produto em exposição.
Existe uma segunda tentativa, que é a de retirar o espírito da coisa. Parece bobo quando a coisa vai para o metafísico, mas gostaria que acompanhassem o raciocínio: existe uma diferença entre fazer uma coisa porque você quer fazer e viver aquilo, e fazer uma coisa para gerar um conteúdo com aquilo. Um conteúdo, uma evidência, uma mídia.
É perturbador ver pessoas indo a shows para filmar com o celular um show que já está sendo filmado de forma profissional. Ou pessoas que entram em relacionamentos para tirar fotos de um relacionamento feliz. Ou pessoas que vão viajar e querem demarcar os lugares em que foram, mesmo que a viagem tenha sido um lixo, ou que tenha sido legal também. Não me faz muito sentido.
Conversando com algumas pessoas, boa parte delas já entende a rede social dessa forma, nessa problemática. E parece estar bem com isso. No final das contas, me parece um problema muito individual. Talvez seja eu mesmo que tenha algum problema com rede social.
Será que é isso mesmo? Ou será que as pessoas já estão anestesiadas para esse tipo de coisa?
Porque vai um tempo rolando feed de rede social. Vai um tempo para planejar o que você vai postar ali. Vai um tempo para se tornar um produto.
A pergunta ressoa, e não deveria ressoar apenas para mim: será que vale mesmo todo esse tempo?

9 de mar. de 2026

Criaturas

O enfado eterno é insuportável aos Deuses.
Mesmo parados, querem diversão. 
Nem que seja momentânea, fugaz.
Deus mesmo precisa de um problema, 
Talvez seja aí a aproximação com a filosofia.

Parados, os deuses não sabem lidar com o tédio, 
Nos criaram para se divertir, por mero prazer,
E pedem oferendas, rituais, sacrifícios... 
Mas não precisam de nada. 
Os Deuses não sabem desejar. 

Nós, mortais, tampouco sabemos lidar com o vazio. 
Estamos sempre na ânsia de ocupar nossa existência, 
Como se fosse um problema. 
Movidos por um desejo visceral de fugir do tempo.

A vitrinificação encarna-se. 
Vários olhos se assistem de vários ângulos,
A disputa não cessa, 
Mas ninguém ganha um placar. 

Deuses nos criam para não lidar com o abismo. 
É só isso que somos, criaturas de entreter Deuses. 
Não por virtude deles. 
Por medo. 

Afinal, quem é que aguenta o abismo olhando de volta? 

17 de jan. de 2026

Recorte - Poesia

Essas vozem que ecoam em minha cabeça,
De tanto convívio, ressoam. 
Elas dizem isso é só sonho, 
Só ilusão. 
Acusam o golpe.
No lixo, foram jogadas as transcendências.
De ser, de representar. 

Qualquer que seja a fuga do mundo cru, 
É um recorte, uma linha. 
Algo é morto pra consideração nascer. 

E eu, como aprendiz de poeta. 
Fico aqui, com a questão na mão. 
Que será que é o amor se não um recorte de alma? 

26 de out. de 2025

Enterrado Vivo

O cansaço me venceu,
Estou incapaz de ouvir, 
E prefiro mastigar vidro a me explicar. 

Meus pensamentos giram.
Giram em torno de si mesmo, 
Parece um encantamento
Mas sem nada de encantador. 

Adoraria dizer que encontro paz em algo, 
Mas é bem o oposto, 
Parece que estou bem treinado, 
Pra encontrar algo na paz. 

Nem silêncio, nem tédio, nem solidão. 
Nada disso acalma minha alma. 
Não tenho ao que recorrer. 

31 de mai. de 2025

Heidegger

Nada é mais belo que a necessidade,

E podes pensar que falo da fome,

Mas não entendes nada.

A beleza dela não pode ser vista,

Tentamos força-la a estar aqui, 

Isso é necessário, aquilo outro... 


Ela não está entre nós. 

Nós mesmos não somos necessários, 

Somos uma opção, 

Uma porção de sua inexistência.


Juramos que a morte é necessária... 

Nem isso! 

A necessidade é sublime, 

É nela que vós tentais agarrar,

Sem sucesso, pois a busca é o tormento. 


Falamos tanto dela, 

Blasfemando. 

O nada. 

Como pode esse ser o o artigo? 

Definido uma ova. 


Não me diga que não tinha notado. 

Sem exceção, todos fingem ter raizes fortes, 

Fingem importância, 

Mas a imanência da contingência nos surta. 

E ela não pode ser ignorada. 

Você não entende o nada. 


A necessidade é sublime, 

É a busca, o tormento, a crise. 

Tudo sem solução, 

Pois os sentidos só acessam contingência. 




13 de mai. de 2025

Fica tudo escuro

Entre céu e inferno,
Prefiro escuridão. 
É melhor apagar do que perdão e rancor. 
Nada de aprendizado, passagem, 
Teste, missão, autoconhecimento...
Nada! Pra que? 
É preferível o vazio.
Um grande e enorme nada. 
Sem organizações, conversas, associações. 
Nada de pactos, ordens e castigos divinos. 
É melhor mesmo o desligar.