Musicas

4 de mai. de 2026

Hábito.

Existe algo sobre se sentir sozinho que parece aparecer somente em momentos bem específicos da vida. Parece que ficar sozinho muito tempo te coloca em uma sensação de viver no automático: fazer as coisas diariamente, no mesmo horário, procurando exercer excelência para si mesmo acaba te esvaziando de outros.
Acabo pensando bastante na noção de virtude apresentada por Aristóteles. Não que eu concorde com o que ele apresenta como filosofia, mas aí é que está, parece que não é uma questão de concordância, é só o que é mesmo.
Buscar o que há de melhor na nossa vida não vai se traduzir nunca em um momento de felicidade tal como a gente espera, isso de fazer as coisas pra ser feliz precisa ser colocado no lugar, a felicidade só pode ser observada a distância. Não porque ela esteja fora da vida, mas sim por que imerso numa vida feliz é impossível reconhece-la por falta de contraste, de não ser possível perceber que era feliz até que a felicidade acabe.
Será mesmo que a felicidade é sempre desavisada? Mesmo que planejada, executada, buscada, disciplinada. Tudo para converter comportamentos em hábitos que posteriormente serão vividos plenamente fora da consciência... 
É algo a se pensar, entender que nossas próprias ações nos guiam para habitualmente ter uma vida "feliz" nos coloca num paradigma solitário: o de ter que lidar com nosso plano sozinho, mesmo que nosso plano de vida seja compartilhar com um outro.
Isso parece óbvio, mas não há nada que se possa inferir de obvio daí. 
A primeira coisa é que ninguém é capaz de avaliar se você é feliz, exceto você. Pois essa avaliação não é feita de forma objetiva, com dados concretos e compartilhaveis, pelo contrário, é bem possível que nem mesmo você, sendo o próprio avaliador, tenha seu próprio gabarito. É preciso molda-lo, experienciar. 
Outra coisa é que a busca por sentido mais amplo, inato ou a priori (se é que eu entendo a diferença entre esses conceitos) é chula. Não é que faça alguma diferença em algum âmbito, talvez assumir que o sentido seja construção própria seja não só mais fácil, como seja a única via possível. Ficar se desgastando com explicações mirabolantes para o sentido da vida é só um vício estranho mesmo. 
Por fim, os momentos de solidão vão mostrando que a vida é um fluxo e que na verdade você não tem muito poder de escolha sobre o que sente, deseja, seus afetos e nem mesmo como afeta os outros. Talvez a única coisa que tenhamos algum controle é a nossa ação. E essa tem um modo bem acabado de existir: é hábito. 

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